O QUE CONDICIONA A EXISTÊNCIA DA VIDA?
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Com a descoberta recente de diversos planetas em torno de outras
estrelas, a questão da procura de vida extra-terrestre ganhou um novo
ânimo. O problema não é, como se pode prever, de fácil
resolução. Para comecar, é necessário definir o que é a vida. E é aqui
que entram as primeiras suposições. O mais simples é considerar que
"vida" significa a existência de seres tais como os que conhecemos
aqui na Terra. Ou seja, cuja vida se baseia na química do carbono e
que, de uma ou de outra forma, utilizam o ADN como modo de transmitir
informação para os seus descendentes. Estes seres necessitam de uma
série de condições físico-quimicas para se poderem desenvolver e
multiplicar.
Uma condição importantíssima para a existência de vida passa pela
existência de um planeta. A "superfície" de uma estrela é demasiado
quente, e o espaço interestelar é demasiado frio e vazio. A vida
necessita de algo intermédio, tal como a superfície sólida de um
planeta. Mas não de um planeta qualquer. Um planeta, para possuir
vida, precisa de reunir uma série de características. A sua
temperatura, que é controlada, por exemplo, pela distância a que se
encontra da sua estrela, é uma das variáveis mais importantes. Se a
Terra se encontrasse demasiado perto do Sol, a temperatura seria
demasiado elevada. Toda a água do nosso planeta evaporaria e as
moléculas da vida seriam dissociadas. A Terra seria um planeta
desértico. Pelo contrário, se se encontrasse demasiado longe do Sol,
toda a água congelava. A temperatura não era suficiente para que as
reacções químicas - que são a base da vida - pudessem ocorrer e, mais
uma vez, a vida não poderia desenvolver-se. A distância à sua estrela
é, portanto, uma condição importantíssima para a existência de vida
num planeta.
Mas nem todas as estrelas podem abrigar planetas com vida. Em todo
o Universo, o Sol é apenas uma pequena estrela "amarela". Há estrelas
bem mais quentes e azuis e outras mais frias e vermelhas. Dadas estas
diferenças, a distância a que um planeta se deve encontrar da sua
estrela para que possa possuir vida é bastante variável. Mas não é
tudo. Se a Terra se encontrasse em torno de uma estrela mais massiva,
quente e azul, a quantidade de radiação ultravioleta seria demasiado
elevada. À semelhança do que aconteceria se acabássemos com o ozono da
atmosfera terrestre, os raios ultravioletas destruiriam qualquer vida
existente à superfície da Terra. Por outro lado, se o Sol fosse uma
estrela vermelha e fria (e que emite a maior parte da radiação no
infravermelho), a quantidade de radiação visível recebida na Terra
nunca seria suficiente para que a fotossíntese pudesse ter lugar e,
provavelmente, não haveria vida no nosso planeta.
Outra questão importante para a existência de vida é a estabilidade.
Se mudarmos rapidamente as condições ambientais (o que, de resto,
estamos quase a conseguir com a destruição da camada de ozono e o
efeito de estufa!), a vida tem dificuldade em adaptar-se. Esta precisa
de um certo tempo, e só consegue sobreviver se as variações forem
suficientemente lentas para que, de geração em geração, os organismos
se adaptem. Ora, a órbita dos planetas em torno do Sol descreve uma
elipse. Mas, no nosso caso, trata-se de uma elipse que é quase um
círculo. Tal significa que a distância da Terra ao Sol se mantém
aproximadamente constante ao longo do ano. Se imaginarmos que, por
qualquer tipo de perturbação, a órbita da Terra passava a ter uma
excentricidade elevada, a distância da Terra ao Sol iria variar
muitíssimo ao longo de um ano. Deste modo iria igualmente variar a
quantidade de radiação recebida na Terra e, consequentemente, a
temperatura. A vida teria grandes dificuldades em se adaptar.
Hoje sabe-se que, por exemplo, se retirássemos a Lua de perto da
Terra, esta começaria a precessar como um pião, variando a direcção do
seu eixo de rotação. Isto faria com que as estações variassem de forma
extremamente rápida e brusca. Devemos portanto à nossa Lua não só as
magníficas noites de Lua cheia, mas também a vida.
Se o nosso Sol fosse uma estrela variável, cujo brilho varia
profundamente numa questão de anos, dias, horas ou mesmo minutos, a
vida na Terra estaria igualmente condenada. A existência de vida
necessita portanto da existência de um planeta que rode em torno de
uma fonte estável de energia (uma estrela "semelhante" ao Sol), no
qual as estações sejam relativamente estáveis.
Estes são provavelmente alguns dos principais constrangimentos
para a existência de vida tal como a conhecemos. No entanto, com estes
e tantos outros obstáculos para a sua existência, a vida conseguiu
desenvolver-se no nosso planeta. Hoje sabemos mesmo que a vida é
extremamente hábil e resistente, conseguindo sobreviver tanto no fundo
de lagos na Antártida - a temperaturas abaixo de 0 gaus centígrados -,
como nas fontes hidrotermais, onde as temperaturas ultrapassam os 100
graus centígrados! Com milhares de milhões de estrelas como o Sol na
nossa galáxia, é portanto difícil imaginar que estamos sós. Muitos
outros mundos repletos de vida existem provavelmente pela Galáxia
fora. E, provavelmente, muitos deles se questionam: "haverá vida
noutro planeta?"
(Texto do Dr. Nuno Santos)