A ORIGEM DA CHUVA CÓSMICA
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Mas quem são estes aceleradores de partículas de potência
inigualável? Existem três candidatos propostos pelas teorias actuais:
os Núcleos Activos de Galáxias, os defeitos topológicos do
espaço-tempo ou as zonas de explosões de raios gama.

Os primeiros possuem um buraco negro no seu centro. A sua massa é
enorme, sendo estimada em, pelo menos, um bilião de massas
solares. Atraem toda a matéria ao seu redor e expelem, pelos pólos,
jactos de partículas, para o espaço inter-galáctico. Até hoje estão
catalogadas várias dezenas de Núcleos Galácticos Activos.

Outra possibilidade contempla que os responsáveis datem da época
do Big Bang. No seu início, o Universo encontrava-se em desordem,
submetido a transições de fase contínuas. Defeitos do espaço-tempo,
uma espécie de dobras, poderiam ter resultado em filamentos de matéria
muito densa. Estas cordas cósmicas, como lhes chamam, seriam assim
vestígios da estrutura do Universo em formação. A teoria postula que
quando duas cordas se cruzam, podem fundir-se numa só, libertando
assim a energia que acumulavam sob a forma de partículas muito
energéticas, datando dos primeiros tempos do Universo.

"Quanto às explosões de raios gama", explica Arache Djannati-Ataï,
do Colégio de França, "constituem um puzzle desde há 30 anos. Mas, nos
últimos doze anos, começamos a ter uma ideia mais precisa da sua
origem. Estas violentas emissões esporádicas de raios gama serão
originadas nas colisões e fusões de estrelas de neutrões". De acordo
com alguns investigadores, a energia dissipada quando se dá uma
explosão de raios gama seria suficiente para fornecer fluxos de
partículas de alta energia.

É por esta razão que, enquanto esperamos por uma análise mais
precisa das partículas de muito alta energia, uma outra forma de
determinar a sua proveniência consiste em estudarmos as outras
partículas, bem menos energéticas, que nos bombardeiam muito mais
frequentemente. Na verdade, por cada metro quadrado, abatem-se sobre
a Terra cerca de 200 partículas de um Mega-electrão-Volt (MeV) por
segundo. No mesmo período de tempo, não cai mais que uma de um
Giga-electrão-Volt (GeV) e apenas uma por ano consegue atingir um
trilião de electrões-Volt, ou PeV. Estas são partículas ridiculamente
fracas quando comparadas com as partículas de alta energia (já
referidas nos dois artigos anteriores desta série). No entanto, a
sua maior frequência de ocorrência pode proporcionar-nos bem mais
ensinamentos. De entre estas partículas, existem duas espécies que
têm sido mais estudadas: os neutrinos e os raios gama. Estes últimos,
pelas suas características intrínsecas, não são desviados ao longo
da sua viagem. Podem pois constituir apontadores ideais para as
fontes potenciais de raios cósmicos de alta energia caso, também
eles, resultem de fenómenos bastante poderosos.

Em Fevereiro de 1997, o satélite italiano-holandês BEPPO,
auxiliado por alguns telescópios terrestres, conseguiu localizar a
fonte de duas explosões de raios gama. Os cientistas estimaram então
que estes acontecimentos tinham libertado durante alguns segundos
tanta energia como a que o Sol dissipa penosamente em 10 biliões de
anos. Além disso, esta observação veio confirmar que as explosões de
raios gama têm origem a distâncias cosmológicas, da ordem dos 9 mil
milhões de anos-luz. Os raios gama e os raios cósmicos de alta energia
partilharão pois, eventualmente, a mesma origem.

É de crer que estas estranhas partículas ainda conservem os seus
mistérios durante mais alguns anos. De onde virão? Da Via Láctea ou de
mais além? O que são? E ainda: Existirão partículas ainda mais
energéticas que as "zeta partículas"? O Observatório Pierre Auger
trará possivelmente algumas respostas.


(Última parte da notícia adaptada de um artigo da revista "Sciences
et Avenir")