OLHO DE MOSCA
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O raio cósmico mais potente que foi detectado até hoje atingiu os
0,3 ZeV, ou seja quase 10 vezes mais que o limite GZK. Foi registado
há cerca de 5 anos, no deserto do Utah, Estados Unidos. Nessa terra
árida encontra-se um detector único no mundo. O Observatório "Fly's
Eye" deve o seu nome de "Olho de Mosca" à forma dos seus receptores,
semelhantes às facetas do olho desse insecto. Esta "mosca" é,
actualmente, o único instrumento capaz de proporcionar uma pista sobre
a identidade da partícula inicial que dá origem ao feixe assim que
entra na atmosfera terrestre. Para tal o Observatório "Fly's Eye"
detecta a fluorescência das moléculas de azoto, excitadas pelo
contacto das partículas secundárias que assinalam o desenvolvimento do
feixe. Graças ao seu conjunto de espelhos e de fotomultiplicadores, o
Observatório "Fly's Eye" detecta esta fluorescência até uma altura de
15 Kms. Tira assim uma verdadeira fotografia dinâmica da chuva e vai
quase até à fonte dessa "chuva", ou seja, à partícula
primária. Reverso da medalha: a observação requer condições
atmosféricas excepcionais. O seu olho de mosca necessita de noites
claras e sem lua, o que limita a sua utilização a 10% do tempo. Esta
tecnologia de olho de mosca tem vindo a ser melhorada a fim de se
atingir uma taxa de 20% e será uma das componentes do futuro
Observatório Pierre Auger. Tal acuidade permitirá precisar a natureza
das partículas primárias dos raios cósmicos de alta energia, entre as
quais se identificaram, até agora, protões, núcleos de hélio e outras
ainda mais pesadas.
Até ser destronado pelo Observatório Pierre Auger, o maior
observatório existente fica no Japão. Situado em Akeno, a cerca de 120
Kms de Tóquio, o Observatório Agasa é constituído por 111 estações
detectoras repartidas por uma área de 100 quilómetros quadrados. Foi
este observatório que, em 1993, detectou a segunda partícula mais
energética, de 0,2 ZeV. Graças ao seu largo campo de observação,
registou um feixe de partículas que se espalhou ao longo de uma
superfície de 16 quilómetros quadrados. O Observatório Pierre Auger
será capaz de "ver" uma superfície ainda maior, e de aumentar o raio
de captura das "gotas" do feixe atmosférico. E são nada menos que 100
biliões de partículas secundárias, fotões e electrões na sua maioria,
que atingem o solo a cada "chuvada"!
A superfície do Observatório Pierre Auger permitir-lhe-á ver mais e
também mais frequentemente. "Se conseguirmos detectar bastantes
acontecimentos, conseguiremos reconstituir a trajectória dos raios
cósmicos e localizar, assim, a direcção das suas fontes emissoras"
afirma Daniel Vignaud. Estima-se que pelo menos uma centena de
acontecimentos seja o suficiente para se conseguir reconstituir a
direcção. "Bastará prolongá-la em linha recta até aos aceleradores
cósmicos que irradiam até nós numa tal intensidade", conclui o mesmo
investigador.
(Segunda parte da notícia adaptada de um artigo da revista "Sciences
et Avenir")