Em Busca de Vida Extra-Terrestre
Pela primeira vez na História, a procura de sinais de vida noutros
planetas deixa de ser apenas um sonho na mente de alguns pensadores, para
passar a ser uma das demandas científicas do século que agora se
inicia. A evolução dos acontecimentos aponta fortemente nesta direcção: a
descoberta de mais de 80 planetas exteriores ao Sistema Solar, juntamente com
a primeira detecção de linhas espectrais do sódio na atmosfera dum desses
planetas, revela que existem planetas a orbitar outras estrelas e que, além
disso, é possível estudar algumas das suas características, mesmo a grandes
distâncias.
Por enquanto, os planetas descobertos consistem apenas em
gigantes gasosos, semelhantes a Júpiter ou Saturno, devido ao facto de
planetas como a Terra serem muito pequenos para serem detectados com
os meios actualmente disponíveis. Porém, existem alguns projectos em curso
que visam melhorar a resolução actual. Um destes é o projecto
Kepler, da NASA, a ter ínicio em 2006. Consiste num telescópio espacial
cuja função é a de procurar pequenas diminuições no brilho de estrelas
provocadas pela ocultação introduzida por companheiros, ao passarem na nossa
linha de visão, mesmo sendo corpos tão pequenos como a Terra. Outros dois
projectos, a iniciar no final da década, são o Terrestrial Planet Finder
(TPF) da NASA, e DARWIN da European Space Agency (ESA), cujo objectivo comum é do
diminuir o brilho proveniente duma estrela, usando uma técnica denominada
"interferometria", de modo a revelar corpos muito menos brilhantes, como é o
caso dos planetas terrestres.
Mesmo usando um sistema tão avançado como o TPF, um planeta será
observado apenas como um pequeno ponto de luz. A questão principal consiste
na informação que se pode extrair deste pequeno ponto. Na luz vinda do planeta
podem observar-se as "assinaturas" espectrais dos constituintes da sua
atmosfera. Se existir vida num planeta, a atmosfera apresentará sinais da sua
presença. Assim como o ar que expiramos contém mais dióxido de carbono que
oxigénio em relação ao que inspiramos, a combinação de toda a respiração da vida
dum planeta vai alterar a química da sua atmosfera, alteração essa que irá ser
flagrante se as formas de vida presentes forem suficientemente abundantes.
Uma das perguntas principais que se faz consiste no tipo de sinais a
procurar que possam indicar presença de vida. O primeiro impulso é o de
usar a biologia do nosso planeta como referência. Porém, como foi apontado
por Michael Meyer, cientista senior da NASA em astrobiologia, não nos devemos
centrar apenas na vida como a conhecemos. O que nos garante que a vida, que
toma um rumo de evolução através de mutações e selecção natural, sem uma
lógica aparentemente definida, não possa seguir um curso diferente para
formas diferentes das que conhecemos? Um possibilidade é a de ser possível a existência de vida
baseada em silício, um "parente" químico próximo do carbono, com propriedades
muito semelhantes. As formas de vida possíveis dentro desta ou de outra
hipótese são inimagináveis. Felizmente, os constragimentos impostos para que
formas de vida evoluam e funcionem em pleno, levam a que moléculas como o
oxigénio e o dióxido de carbono desempenhem o mesmo papel que lhes é
atribuido na Terra. Ainda que tenhamos vida baseada em silício, esta poderá
ser fotossintética, pelo que irá expelir igualmente oxigénio para a atmosfera,
como refere Meyer.
Por estas e outras razões, a exploração de planetas como a Terra irá
incidir na procura de gases simples para o sustento da vida como o oxigénio,
o ozono, o dióxido de carbono, o metano e o vapor de água. O oxigénio é um bom indicador de vida
porque uma forte presença deste numa atmosfera não é, por si só, justificável
apenas com base na cisão de moléculas de água pela radiação UV, visto que a maior parte
deste é consumido em reacções químicas com gases originados por actividade vulcânica ou
devido a oxidação com rochas e minerais da superfície. É preciso a existência
dum agente activo que produza oxigénio suficiente - por fotossíntese, para
justificar uma abundância presente.
O metano era uma molécula abundante na atmosfera nos primeiros milhões
de anos da história da Terra, quando ainda não existiam formas fotossintéticas
capazes de produzir oxigénio, pelo que a observação do seu espectro indicaria
um planeta a passar por uma evolução semelhante. Porém, há que ter em conta
que o metano pode ser produzido por outros processos sem requerer a existência
de vida.
A presença destas moléculas na atmosfera dum planeta extra-solar
não é prova inquestionável de que este albergue vida, mas dá-nos um forte
indício. O passo seguinte será o de obter telescópios espacias de maior
resolução que permitam visualizar o planeta como mais do que um mero "ponto
de luz", e poder observar algumas características da sua superfície ou a
mudança das suas estações sanzonais. E talvez, no final da próxima década, seja
possível enviar uma sonda pelo espaço interestelar para observar estes mundos
de mais perto, e assim, providenciar provas irrefutáveis.
Com um pouco de paciência, talvez uma das perguntas mais incontornáveis
da Humanidade possa finalmente vir a ser respondida: "Estamos realmente sozinhos no
Universo?"