ODYSSEY ENCONTRA GELO EM ABUNDÂNCIA SOB A SUPERFÍCIE DE MARTE
Usando os instrumentos a bordo da nave espacial Odyssey enviada em 2001 pela
NASA, os cientistas, surpreenderam-se ao encontrarem enormes quantidades de um
algo precioso escondido logo por baixo da superfície de Marte - uma
quantidade de água no estado sólido suficiente para encher o equivalente a
duas vezes o lago Michigan(*) nos EUA. E isto poderá ser apenas a ponta do iceberg!
"É realmente incrível! Esta é a melhor prova concreta que temos da
existência de água congelada na subsuperfície de Marte! Tinhamos
esperança de que poderíamos encontrar alguns vestígios de gelo, mas o que
descobrimos foi muito mais gelo do que alguma vez esperámos!", revelou William
Boyton, o investigador principal do grupo de Espectrometria de Raios Gama da
sonda Odyssey, da Universidade do Arizona, no Tucson.
Os cientistas usaram o espectrómetro de raios gama da Odyssey para a
detecção de hidrogénio, o qual indicou a presença de gelo apenas a um metro
abaixo do solo, numa vasta região que rodeia o pólo sul do planeta. "É mais
adequado caracterizar esta camada como contendo gelo sujo do que
sujidade contendo algum gelo", acrescentou Boyton. A detecção de hidrogénio
é baseada na intensidade de raios gama emitidos por este elemento, bem como
na intensidade de neutrões que são afectados pelo mesmo. O detector de
neutrões de energia elevada e o espectrómetro de neutrões registaram a sua
intensidade.
A quantidade de hidrogénio detectado indica que o gelo constitui
entre 20% e 50% da massa, na camada mais baixa. E como a rocha tem uma
densidade maior que o gelo, este valor implica que mais de 50 por cento do
volume dessa camada seja preenchido por gelo. Isto significa que se alguém
aquecesse um balde inteiro deste solo rico em gelo, mais de metade do balde
ficaria cheio de água.
Este espectrómetro de raios gama é único, já que é capaz de sondar a
composição do solo abaixo da superfície até cerca de um metro de profundidade.
Pela combinação dos diferentes tipos de dados recolhidos pelo instrumento,
concluiu-se que o hidrogénio não está uniformemente distribuído pelo
primeiro metro de profundidade, mas sim que se encontra muito mais concentrado
na parte inferior desta.
Foi descoberto também que as regiões ricas em hidrogénio estão
localizadas em áreas que se sabem ser muito frias e onde portanto o gelo
deve ser estável. Esta relação entre o elevado conteúdo de hidrogénio e
regiões de previsível estabilidade do gelo permitiu concluir que o
hidrogénio se encontra, de facto, sob a forma de gelo. Esta camada rica em
hidrogénio estende-se entre cerca de 60 e 30 centímetros de profundidade, a
uma latitude que varia entre os 60º e 75º sul, respectivamente.
Os indícios de hidrogénio subterrâneo detectados na região do pólo sul são
também visíveis no norte, mas não nas proximidades do pólo. Isto deve-se ao
facto de o dióxido de carbono (gelo seco) sazonal congelar e cobrir as regiões
polares durante o Inverno, como uma espécie de geada. À medida que a Primavera
no hemisfério norte se aproxima, os últimos dados indicam que a geada está a
regredir, revelando, por baixo, solo rico em hidrogénio".
Há já algum tempo que se suspeitava que Marte teve, em determinada altura,
grande quantidade de água próxima da superfície. As grandes questões para
as quais se procura encontrar resposta eram, 'para onde foi toda a água?'
e 'quais são as implicações para a vida?'. Medindo e mapeando os solos
gélidos das regiões polares de Marte, como a equipa da Odyssey fez é uma
importante peça deste puzzle, mas é necessário continuar a pesquisar,
talvez ainda mais fundo no subsolo, o que aconteceu ao resto da água que
se pensa ter existido em Marte numa época anterior.
Outro resultado obtido a partir das informações dos neutrões é o de que
vastas áreas de Marte entre latitudes baixas e médias contêm quantidades
ligeiramente enriquecidas em hidrogénio. A interpretação deste facto ainda
está em estudo, mas a hipótese preliminar mais provável é de que esta
quantidade relativamente pequena de hidrogénio esteja ligada aos minerais
existentes no solo, não se encontrando portanto na forma de gelo.
(*) O Lago Michigan é um lago norte-americano com 58 240 km quadrados de área e
profundidade máxima de 265 m.