A ASTROFÍSICA SOLAR

A Astronomia é diferente da Física, da Química e da
Biologia na medida em que é impossível efectuar
experiências de laboratório. Apenas é possível
observar aquilo que o Universo nos proporciona.
Claro que a vasta diversidade dos fenómenos
cosmológicos compensa largamente esta desvantagem.
Há, no entanto, uma classe de astrónomos para quem
a ausência de um laboratório se torna especialmente
negativa... falamos dos astrónomos solares. Estes
apenas podem observar com pormenor um único sol, o
nosso, num único estágio da sua evolução, o actual.
Será que as manchas solares e as ejecções de massa
coronal - fenómenos que conhecemos pelo nome colectivo
de actividade solar - seriam diferentes se o Sol fosse mais ou
menos massivo, ou se ele girasse a uma velocidade
diferente? Terá o Sol sido mais activo quando era
jovem? Continuará a ter a mesma actividade quando
já for velho?

As respostas a estas questões são difíceis de obter
se nos limitarmos a estudar o próprio Sol. Apesar
disso, elas têm uma importância bastante para além
da académica. Redes de cabos eléctricos já têm sido
sobrecarregadas por tempestades geo-magnéticas de
origem solar e os astronautas podem correr sérios
riscos quando o Sol ejecta quantidades copiosas de
partículas altamente energéticas. Ainda mais
importante, as alterações de longa duração que
ocorrem no Sol podem provocar mudanças profundas no
clima da Terra: no século XVII a actividade solar
quase desapareceu e os invernos na Terra tornaram-
-se significativamente mais frios. Quais são as
hipóteses de o Sol voltar a entrar num estágio
desse tipo? Finalmente, quais são as hipóteses de
existirem outras civilizações no Universo? A
evolução da vida nos outros sistemas solares que
estamos a começar a descobrir depende do
comportamento dos respectivos sóis. Estudando a
actividade magnética de outras estrelas, estas
questões poder-se-ão pôr e é disto que trata a
astrofísica solar-estelar.

A Física solar, tradicionalmente, tem-se focado nas
mudanças de curto prazo ocorridas na atmosfera do
nosso Sol. Os estudos estelares, por seu lado,
concentraram-se durante décadas nas propriedades
estáticas; o seu principal objectivo é entender
a evolução das estrelas em escalas de tempo muito
longas. Mas estas perspectivas estão a sofrer uma
mudança muito grande com as possibilidades abertas
pelos telescópios e observatórios espaciais. Aquilo
que sempre fora bloqueado pela atmosfera terrestre
está agora disponível, tendo surgido novas janelas
espectrais para observação.
Com as novas janelas de alta energia
proporcionadas pelos foguetões e pelos satélites de
investigação, os astrónomos deslocaram muita da sua
atenção da superfície e do interior das estrelas
para a actividade que ocorre na atmosfera exterior
das mesmas estrelas. Em muitas delas esta
actividade envolve uma variedade ainda maior de
fenómenos que aquela que encontramos no nosso Sol.
No entanto, como veremos adiante, pensa-se que toda
esta actividade se prende com a libertação de
energia magnética, tal como acontece no nosso Sol.

A proximidade do Sol permite-nos obter imagens
ricamente detalhadas, como as proporcionadas pelos
satélites SOHO e TRACE. São, no entanto, as
observações pouquíssimo detalhadas que obtemos
das estrelas que servem para variar, num sentido ou
no outro, os parâmetros fixos do Sol,
providenciando um laboratório natural para examinar
os efeitos da idade, massa e rotação. A revolução
em curso na astrofísica de alta energia, baseada em
observações efectuadas no espaço está a permitir-
-nos pôr duas questões muito claras e relacionadas
entre si. O que aquece a coroa do Sol e das outras
estrelas até às temperaturas de diversos milhões de
graus que se observam? Qual a actividade que se
pode esperar de estrelas diferentes do Sol e qual a actividade
que se espera que o Sol venha a ter no futuro?