"FILMES" DO HUBBLE MOSTRAM ESTRELAS JOVENS EM CONSTANTE MUDANÇA
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"Filmes" obtidos através de uma série de imagens sequenciais,
observadas pelo Telescópio Espacial Hubble, estão a mostrar aos
astrónomos que as estrelas jovens e o meio que as rodeia podem mudar
dramaticamente em apenas algumas semanas ou meses.

Tal como se verifica com as crianças, uma "fotografia" destas
estrelas jovens obtida hoje não será igual a uma outra tirada uns
meses mais tarde. Os "filmes" mostram jactos de gás mergulhando no
espaço a uma velocidade de centenas de milhares de quilómetros por
hora e sombras em movimento com milhares de milhões de quilómetros de
extensão.

Os sistemas de estrelas jovens apresentados nestes "filmes", XZ
Tauri e HH30, situam-se a cerca de 450 anos-luz da Terra, na nuvem
molecular de Taurus-Auriga (Touro-Cocheiro), um dos berços estelares
mais próximos do nosso planeta.

Ambos os sistemas têm, provavelmente, menos de um milhão de anos
de idade, fazendo deles verdadeiros recém-nascidos estelares, já que o
tempo médio de vida das estrelas se situa nos milhares de milhões de
anos.

Estes sistemas foram observados pela primeira vez em 1995, por uma
câmara a bordo do Telescópio Espacial Hubble. As imagens então obtidas
eram tão intrigantes que aqueles sistemas voltaram a ser observados em
1998, 1999 e já no corrente ano. As diversas imagens foram então
combinadas de forma a se obterem "filmes" que documentam a
surpreendente actividade nos estádios iniciais da vida de uma estrela.

As estrelas formam-se em nuvens de gás e poeira que vão colapsando
num disco giratório. Descargas de gás, como as bolhas e jactos vistos
nestas imagens a serem ejectados das estrelas, ocorrem quando algum do
material do disco, que rodeia e alimenta a estrela central, é desviado
pelo campo magnético da estrela, acelerado e ejectado ao nível dos
pólos magnéticos da estrela. Estas descargas são frequentemente
comprimidas em jactos estreitos que se podem estender ao longo de
muitos anos-luz. Descargas deste tipo são um resultado comum e natural
do nascimento das estrelas.

XZ Tauri é um sistema jovem constituído por um binário estelar (ou
seja, por duas estrelas em órbita em torno uma da outra). O par está
separado de cerca de 6 mil milhões de quilómetros, aproximadamente a
mesma distância que separa o Sol do planeta Plutão, no nosso Sistema
Solar.

Os astrónomos que analisaram as imagens do Hubble ficaram muito
surpreendidos ao descobrirem uma enorme bolha de gás quente e
brilhante que se liberta do sistema estelar e se estende por cerca de
96 mil milhões de quilómetros. A temperatura desta bolha ronda os 9700
graus Celsius.

A bolha parece ser muito mais larga que os jactos estreitos
associados a outras estrelas jovens, mas é causada pelo mesmo
processo, ou seja, pela ejecção de gás a partir de uma estrela. No
entanto, as imagens obtidas pelo Hubble não mostram o disco que
alimenta este processo de descargas nem identificam qual das estrelas
deste sistema binário é a fonte da descarga. Observações adicionais
deverão ajudar a esclarecer esta questão.

O "filme" mostra que a camada exterior da bolha se afasta do
sistema estelar a uma velocidade superior a 540000 quilómetros por
hora, o que é uma velocidade típica para este tipo de fenómenos. Esta
velocidade e as dimensões da bolha indicam que esta terá cerca de
apenas 30 anos de idade, um mero piscar de olhos na vida de uma
estrela. Expansões laterais da bolha indicam que esta contém uma
elevada pressão interna.

Mas talvez o aspecto mais interessante desta bolha seja o facto de
esta ter mudado de aparência entre 1995 e 1998. Na primeira imagem, a
sua camada exterior e o seu interior pareciam igualmente brilhantes;
em 1998, a camada exterior tornou-se nitidamente mais brilhante. Os
astrónomos que se encontram a estudar o fenómeno crêem que o gás que
rodeia a bolha arrefeceu, permitindo que a camada exterior brilhasse
mais intensamente à medida que os átomos de hidrogénio e enxofre se
recombinavam com os electrões.

Uma expansão continuada da bolha deverá fazer com que toda a
estrutura deixe de ser visível até que o sistema XZ Tauri envie outra
erupção de gás quente para o meio que o rodeia.

Relativamente a HH30, as observações do Hubble mostram um par de
finos jactos a afastarem-se do centro de um disco de poeira.

O disco, que tem cerca de 64 mil milhões de quilómetros de
diâmetro, é visível quase de perfil. Tal como uma estreita nuvem
escura que se move em frente do Sol, o disco bloqueia qualquer visão
directa da estrela que se encontra no seu centro. Tudo o que se pode
ver são o topo e a base do disco de poeira a reflectir a luz emitida
pela estrela.

Os jactos revelam a localização escondida da estrela. Os
astrónomos interessam-se por este disco em especial porque ele será
provavelmente muito semelhante ao disco que deu origem ao Sol e aos
planetas do nosso Sistema Solar.

O disco que rodeia HH30 e os respectivos jactos mostraram mudanças
dramáticas ao longo dos seis anos em que se obtiveram as imagens agora
transformadas em "filme".

Os jactos são facilmente explicados: tal como no sistema XZ Tauri,
existe material a ser ejectado ao longo dos pólos magnéticos da
estrela, a velocidades que variam entre os 320000 e os 960000
quilómetros por hora. De poucos em poucos meses é ejectado um "grumo"
compacto de gás que pode, eventualmente, fundir-se com outros
"grumos". No entanto, os astrónomos não têm ainda uma explicação firme
para o comportamento e evolução das estruturas observadas nos jactos.

Quanto às mudanças no disco, são bastante peculiares:
aparentemente, existem padrões de luz que se deslocam no seu
interior. Os astrónomos crêem que este efeito é semelhante ao que se
observa quando um grupo de nuvens distantes é iluminado pelo feixe de
luz de um farol: à medida que a luz gira, as nuvens parecem brilhar e
depois escurecer.

No caso de HH30, o farol é a estrela e a parte interior do seu
disco, que emitem raios brilhantes e formam sombras escuras na parte
externa do disco. A partir das observacões actuais, os astrónomos
conseguem limitar a velocidade de rotação da estrela central (o
"farol" em HH30), mas necessitam de observações mais pormenorizadas
para tirar conclusões definitivas, nomeadamente sobre a origem dos
padrões de luz observados.


As imagens e os filmes referidos nesta notícia poderão ser consultados em:
http://oposite.stsci.edu/pubinfo/pr/2000/32