O BATER DO CORAÇÃO DO SOL
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As diferentes camadas concêntricas de gás existentes no interior
do Sol rodam a velocidades diferentes, uma acção que pode explicar a
formação das manchas solares e das fulgurações solares, de acordo com
um grupo de investigadores da Universidade de Stanford, Estados
Unidos.
Utilizando os dados recolhidos por um satélite de observação solar
e por cinco observatórios terrestres dedicados ao estudo dos fenómenos
solares, os cientistas assinalaram duas camadas de gás no interior do
Sol que abrandam ou aceleram em sentidos opostos mas com um padrão
sincronizado. "Não é de todo aquilo que esperávamos" reconheceu Jesper
Schou, um dos cientistas envolvidos no projecto, num depoimento
escrito. "É totalmente fora do normal".
Num artigo publicado recentemente na revista Science, os
investigadores afirmaram que a diferença na taxa de rotação ocorre
numa camada abaixo da superfície solar, conhecida pelo nome de
"tachocline", relativamente às duas principais áreas de gás do Sol
que a "tachocline" separa: a zona de convecção, perto da superfície, e
a zona de radiação que inclui o núcleo.
Baseados em dados recolhidos durante quatro anos, os cientistas
descobriram que a "tachocline" aumentou a sua velocidade em cerca de
18 metros por segundo entre Julho de 1996 e Fevereiro de 1997, altura
em que começou a reduzir novamente a sua velocidade até atingir os
valores iniciais passados oito meses. Ao mesmo tempo, a zona radiativa
exibia um comportamento oposto, abrandando primeiro e acelerando
depois, ao longo do mesmo período de tempo. Este ciclo tem-se repetido
cada 16 meses, ou seja, cada 1,3 anos. No entanto, nas latitudes mais
centrais do Sol, o fenómeno ocorre cada 12 meses.
Ao contrário da Terra, o Sol é inteiramente feito de gás. Isto
permite que diferentes partes da esfera solar girem a diferentes
velocidades. Os investigadores disseram que este ciclo enigmático
poderá estar relacionado com as forças que criam o forte campo
magnético do Sol e também o ciclo de 11 anos das manchas solares.
As manchas solares são tempestades solares que disparam impulsos
magnéticos e partículas ionizadas que, ao atingirem a Terra,
interrompem as comunicações e os sistemas de energia. Os
investigadores especulam que talvez os movimentos que ocorrem no
interior do Sol possam, de alguma forma, accionar os ciclos mais
longos de circulação do gás mais superficial, tal como o coração
bombeia o sangue para todo o corpo. "Estamos a escutar o "bater do
coração" do Sol para percebermos o que se passa no seu núcleo", disse
Frank Hill, do Observatório Solar Nacional da Fundação Nacional da
Ciência dos Estados Unidos.
Esta relação agora proposta não era, no entanto, óbvia, de acordo
com os investigadores que agora publicaram os seus resultados.
Descobrir que o ciclo de rotação se adequava ao ciclo undecenal de
actividade do Sol era qualquer coisa que "faria sentido", disse Schou.
"Mas um período de 1,3 anos era totalmente inesperado", de acordo
com aquele investigador. "Ainda não sabemos o que isto quererá dizer".