SATÉLITE XMM-NEWTON DESCOBRE ALTERAÇÕES INESPERADAS NO BRILHO DE
UM SISTEMA CONTENDO UM BURACO NEGRO
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O satélite XMM-Newton parece estar cheio de sorte logo no início
da sua missão! Durante a recente campanha de calibração dos seus
instrumentos científicos, o novo satélite de observação de raios X da
Agência Espacial Europeia (ESA) descobriu, por mero acaso, uma súbita
e dramática alteração num sistema estelar binário, cujas propriedades
não se tinham alterado nos últimos trinta anos.

Localizado na Grande Nuvem de Magalhães, o sistema binário LMC X-3
é extremamente brilhante em raios X. Diversas observações indicam
também que aquele sistema deve albergar um buraco negro. O sistema é
constituído por uma estrela de tipo B, similar ao nosso Sol mas
bastante mais quente e mais massiva. A sua companheira invisível é,
provavelmente, um buraco negro que não pode ser observado directamente
dado que nada - nem mesmo a luz - lhe consegue escapar.

Os efeitos de um buraco negro podem, no entanto, ser observados em
qualquer objecto suficientemente desafortunado para estar próximo
dele. No caso específico de LMC X-3, tem-se detectado a presença do
campo gravitacional do buraco negro pelo seu efeito de puxar e
empurrar a sua estrela companheira ao longo da sua órbita, cujo
período é de 1,7 dias.

Um campo gravitacional tão intenso como o de um buraco negro
provoca também a sucção de gás da sua estrela companheira. Este
material vai constituir um disco de acreção giratório em torno do
buraco negro, sendo capturado pelo objecto central ao atingir o
chamado horizonte dos acontecimentos, ou seja, o limite a partir do
qual nada escapa ao glutão cósmico. À medida que o gás cai neste
abismo, torna-se muito quente e emite radiação X que o satélite
XMM-Newton pode detectar.

O satélite da ESA estava a observar o sistema LMC X-3 como um alvo
de calibração perfeito - brilhante, estável e bem documentado - para
determinar aquilo a que se dá o nome de "função de dispersão de um
ponto" dos seus instrumento: uma medida da forma da imagem que uma
fonte pontual distante de raios X irá produzir. As propriedades deste
binário de raios X observadas pelo XMM-Newton podiam ser facilmente
comparadas com outras observações anteriores, procedendo-se assim à
calibração dos instrumentos a bordo do satélite.

A campanha de calibração estava a decorrer dentro da normalidade
quando, a 19 de Abril, as propriedades da fonte mudaram subitamente e
a sua intensidade baixou para fora da escala de medida dos
instrumentos, ficando cerca de 100 vezes mais fraca! Uma mudança tão
pronunciada nunca tinha sido observada anteriormente, nos cerca de 30
anos de observações efectuadas ao sistema LMC X-3.

Este evento foi também detectado pelo satélite americano Rossi,
que está constantemente a fazer um levantamento do céu na frequência
dos raios X. Foi relatado num telegrama da União Astronómica
Internacional, o serviço de alerta que informa os astrónomos das
notícias mais "quentes". Mas o XMM-Newton teve também a sorte de estar
a observar o sítio certo no momento certo. Os dados recolhidos pelos
seus instrumentos de raios X, bem como os dados ópticos e no
ultravioleta obtidos por outro instrumento a bordo, vão agora ser
cuidadosamente estudados.

De momento, os astrónomos não conseguem ainda explicar este
fenómeno raro. Modelos propostos no passado tinham já previsto
mudanças que ocorreriam nos discos de acreção criados pelo intenso
campo gravitacional dos buracos negros. Mas estas explicações são
rudimentares e, sendo assim, a história completa do que realmente se
passou no sistema LMC X-3 continua por contar.


(Fonte da notícia original: http://spaceflightnow.com/news/n0005/24xmm)